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Mitos e Fatos sobre a maconha. Parte I

04/14/2016

Durante toda história da relação dos seres humanos com a maconha e até os dias de hoje, diferentes lendas, mitos, superstições e crendices foram criadas em torno da erva e dos mais variados aspectos relacionados com o seu consumo. Alguns desses mitos foram abandonados e poucas pessoas levam eles a sério na atualidade, porém outros continuaram fortes até os dias de hoje e seguem sendo utilizados como argumentos inclusive em debates sobre o tema. Nesta série de artigos vamos falar a respeito dos principais mitos a respeito da maconha que existem na atualidade. Também vamos falar a respeito de alguns fatos importantes pouco conhecidos a respeito da erva, ou que são considerados um mito entre os usuários e defensores da legalização.

 

Por ser proibida a maconha faz mais mal do que álcool, tabacos e remédios – MITO ou FATO?

 

MITO – A proibição de algumas plantas e substâncias psicoativas nada tem a ver com os riscos que oferecem à saúde dos consumidores ou com o que diz a ciência a respeito de uma ou outra dessas drogas. Muitos cientistas de variadas áreas do conhecimento têm demonstrado que não se pode levar em consideração somente os aspectos dos efeitos farmacológicos para avaliar os riscos ou danos que uma substância pode causar à saúde de uma pessoa. Fatores emocionais, sociais, culturais, dentre outros devem ser levados em consideração também para determinar o impacto de uma experiência com qualquer droga. Se estivermos analisando não apenas um episódio de uso, mas um hábito de consumo, as variáveis são ainda maiores. No entanto, mesmo se levarmos em consideração apenas o que dizem as ciências da farmacologia, química ou medicina a respeito desses “riscos ou danos”, a cannabis é de longe muito mais segura do que drogas lícitas como álcool, tabaco e alguns medicamentos. O que de fato diferencia qual postura política é adotada com relação ao consumo de uma ou outra substância é a cultura do país em questão e isso podemos ver claramente estudando tanto o passado distante e a relação dos seres humanos com diferentes drogas e plantas quanto analisando as relações políticas que originaram a perseguição ao uso de algumas drogas no início do séc. XX. Também podemos ver isso em análises mais detalhadas das políticas e leis sobre drogas das diferentes sociedades existentes atualmente. Vamos dar alguns exemplos:

 

Em países de cultura árabe e hindu o uso de bebidas alcoólicas é socialmente mal visto e bastante recriminado. Em alguns isso é tão forte que a prática chega a ser criminalizada. Por outro lado o consumo de derivados de cannabis e outras drogas de origem vegetal, como café e khat, é socialmente aceito. Muitos grupos culturais inclusive fazem uso religioso da erva. A Índia, por exemplo, jamais criminalizou o uso espiritual da ganja, nome dado à cannabis pelos devotos de Shiva há milhares de anos. Já nos EUA e em outros países do ocidente que são mais influenciados pela cultura de moral judaico-cristã,  surgiram movimentos que buscam criminalizar o consumo álcool e de algumas drogas a partir do início do séc. XIX. Quase um século depois do surgimento desses movimentos nos EUA eles conseguiram proibir o consumo e comércio de bebidas alcoólicas, que ficou criminalizado de 1920 a 1933, tendo como resultado apenas o fortalecimento do crime organizado que passou a lucrar com o contrabando de álcool, período no qual surgiram gangues famosas, entre as quais a de Al Capone. A pressão popular acabou obrigando os políticos a modificarem as leis e a legalizarem as bebidas alcoólicas novamente. O Brasil também teve movimentos sociais e políticos que tentaram criminalizar o consumo do álcool e de algumas drogas, que se fortaleceu no início do séc. XX, porém não obteve sucesso em proibir as bebidas alcóolicas e passou se concentrar mais na maconha e nos chamados à época “vícios elegantes” (cocaína, éter, morfina e ópio).

 

Se formos considerar então os danos à saúde e das mortes causadas pelo consumo de álcool, tabaco ou medicamentos e comparar com os mesmos dados relacionados com o uso da cannabis certamente a erva vai ser considerada mais segura.

 

A maconha é “porta de entrada” para outras drogas – MITO ou FATO?

 

MITO – E esse é um dos mitos mais antigos, duradouros e preconceituosos com relação ao consumo de maconha. É difícil precisar a origem deste mito ou quando ele começou a ser usado para a maconha, já que ele também costuma ser um argumento comum usado contra diversos outros comportamentos considerados “desviantes” pelos empresários morais da sociedade. Há acusações pejorativas desse tipo para comportamentos sexuais, modos de vestir, de usar o cabelo e qualquer outro aspecto cultural que possa ser classificado dentro de alguma “normatividade” na qual aqueles que não comungam dos mesmos pensamentos e modos de agir, possam ser qualificados de “desviantes da norma”. Afinal, quem nunca ouviu a expressão “começa desse modo e daqui a pouco está...” sendo usada em algum contexto discriminatório no qual alguém tentou impor o caminho que escolheu para seguir na vida como mais corretos que o dos outros? Sobre esse tipo de argumento o músico Keith Richards, declaradamente usuários de diferentes drogas uma vez, quando perguntado o porque de ter começado a consumi-las e qual foi a sua “porta de entrada” ironizou, afirmando que tudo começou por causa do leite do peito de sua mãe ainda quando recém-nascido.

 

Tudo indica que são múltiplos os fatores que determinam se e quais drogas uma pessoa consumirá ao longo da vida. Depende muito mais de fatores culturais, sociais, políticos e econômicos do que dos efeitos farmacológicos ou psicoativos da maconha ou de quaisquer outras drogas. Um exemplo é o modo como diversos medicamentos que podem causar dependência são utilizados atualmente em contexto terapêutico e não necessariamente induzem os pacientes a adquirirem o hábito de consumir outras drogas. E isso não é uma novidade, pois até serem proibidas no começo do séc. XX, diversas “drogas” eram vendidas nas farmácias e consumidas de forma terapêutica bastante controlada sem por isso induzir o consumo de álcool ou outras substâncias. Extratos de maconha, medicamentos à base de cocaína, morfina, dentre outras substâncias atualmente consideradas “drogas perigosas” eram compradas e consumidas tão facilmente por grande parte da população da mesma maneira que hoje utilizamos ibuprofeno, aspirina ou extrato de maracujá.

 

Em alguns países onde há regulamentação a maconha é vendida em estabelecimentos que podem oferecer apenas a erva. Na Holanda, por exemplo, são proibidos de vender inclusive álcool ou tabaco. Quando regulamentou a maconha ainda na década de 1970 os holandeses tinham como objetivo afastar os consumidores das outras drogas como a meta principal. Hoje, décadas após a implantação desta política a Holanda mantém em níveis estáveis a quantidade de pessoas que utiliza maconha no país e consegue diminuir ano a ano o número de usuários de drogas pesadas (morfina, heroína etc). Já nos países onde a maconha é proibida os usuários têm acesso à erva apenas através de traficantes que, em geral, também oferecem outros tipos de drogas. Isso tudo nos leva a concluir que é justamente a proibição, a falta de regras, que faz com que somente criminosos tenham monopólio do mercado e possam vender o que querem, da maneira que querem, oferecendo todas as drogas possíveis, no mesmo “balcão”.

 

Além disso existem diferentes estudos mostrando o potencial dos princípios ativos da cannabis no tratamento da ansiedade e da síndrome de dependência. Algumas experiências têm revelado a cannabis como poderosa aliada no tratamento de casos dependência de cocaína e opiáceos. No Brasil um estudo revelou que muitos usuários de crack conseguem diminuir o consumo da droga e até mesmo para totalmente com o auxílio do uso de maconha. Alguns estudos também têm revelado o potencial terapêutico do fitocannabinóide CBD especificamente para essas aplicações, inclusive no tratamento de dependência de maconha.

 

Maconha pode causar dependência – MITO ou FATO?

 

FATO – Como toda droga ou substância psicoativa utilizada para fins recreativos a cannabis pode sim causar dependência em seus usuários. Para psicólogos, psiquiatras e outros profissionais de saúde os critérios para identificar e diagnosticar a síndrome de dependência de cada droga são diferentes, mas têm aspectos semelhantes. Na verdade não existe um padrão fixo universal de comportamento no qual alguém possa ser encaixado para ser diagnosticado como dependente de algo. Para se diagnosticar alguém como em dependência é preciso avaliar caso a caso. Porém a dependência do uso exclusivamente de cannabis é mais facilmente tratável devido ao fato dos efeitos da sua abstinência serem muito mais leves do que o de outras drogas. Diferentes estudos estimam as taxas de dependência que oscilam de país para país, o que sugere que esse fator também seja influenciado por fatores culturais e também que os critérios para considerar o que seja “dependência” varie de uma pesquisa para outra. Em média, algo entre 3 a 10% das pessoas que consomem cannabis podem desenvolver síndrome de dependência.

 

A cannabis está ficando mais potente – MITO ou FATO?

 

FATO – Como ocorre com todos as plantas e animais com as quais se relaciona o ser humano também tem tentado controlar as características da cannabis e melhorá-las. Calma, por enquanto não há notícias de nenhuma empresa produzindo cannabis transgênica (misturando genes de cannabis com o de outra espécie vegetal, animal ou de outro tipo de ser vivo). O que os criadores têm feito são apenas procurando as plantas das linhagens com as características que deseja, isolando tais características e através de cruzamentos selecionados, formando novas linhagens. Nessas novas linhagens eles buscam isolar algumas características especiais que a cannabis não apresentava com frequência na população naturalmente, mas guardava potencial genético para tal. É o mesmo procedimento realizado pelo ser humano já há algum tempo com outras plantas. É buscar uma característica genética que a planta já tem, explorar seu próprio potencial e usar somente as plantas que tenham essa determinada caraterística.

 

De fato, a produção de inflorescências, resina, fitocannabinóides e terpenos dependem de dois fatores principais: Características genéticas da planta e das técnicas e cuidados empregados no cultivo. Quanto mais os seres humanos aprendem a respeito da cannabis, desenvolvem o conhecimento a respeito do seu cultivo e das técnicas a serem usadas, melhores têm sido os resultados das colheitas. Porém, alguns pesquisadores afirmam que qualquer linhagem de maconha, quando bem cuidada e submetida a uma seleção mínima, poderá produzir muitas flores e grandes quantidades de resina.

 

Os produtores de sementes de cannabis nos primeiros anos focaram seus esforços em aumentar o potencial de produção de THC nas plantas, porém logo viram que esse tinha um limite e que este não podia ser ultrapassado muito mais. Além disso, perceberam que a quantidade de THC também não era o principal fator para os consumidores escolherem uma planta e muitos inclusive demandavam outros princípios ativos, ou preferiam doses menores de THC. Aos poucos, passaram a desenvolver novos híbridos de cannabis e hoje têm investido muito mais em propriedades como aroma, sabor, controle da variabilidade dos fitocannabinóides, cores e formatos das inflorescências e, é claro, na produtividade das plantas.

 

*Sergio Vidal é pesquisador, escritor, ativista, redutor de danos e pai dedicado de uma linda menina de 5 anos. Biografia completa no link: http://sergio-vidal.blogspot.com.br/p/sergio-vidal.html

 

* Picture by @superman503 (Instagram)

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