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Por dentro da ACuCa – Entrevista com Fernando da Silva, o Profeta Verde

12/06/2017

Era um sábado de sol em São Paulo quando, às 16h20, toquei a campainha de uma casa de esquina no bairro Alto de Pinheiros. Recebida pelo Fernando, com quem havia agendado o encontro em horário tão simbólico, sou conduzida para uma sala ampla, com janelões de vidro, onde cerca de trinta pessoas estavam acomodadas em sofás, cadeiras, bancos, no chão e em pé, formando uma ciranda.

 

Fui agregada à roda e passei a ouvir, de cada um, uma história única de relação com a cannabis. “Sou professor de Biologia há 18 anos, cultivo há alguns. Meu pai está desenvolvendo Alzheimer, então estou buscando uma medicação para ele”, compartilha um. “Eu tenho 43 anos, sou acadêmica e estou tentando ser maconheira há um tempo. Falo que sou cosplay de maconheira”, brinca outra. “A maconha, para cada um aqui, tem uma finalidade. E acho que todos nós temos que pensar no coletivo, não no individual. Se a gente pensar no coletivo, a gente vai para frente”, afirma a jovem maquiadora de 28 anos – e maconheira há 10 – seguida de uma salva de palmas.

 

 

 

Nesse clima leve, de troca de experiências, histórias de vida e ideias, foi realizada a última reunião interna de 2017 da Associação Cultural Cannábica de São Paulo – ano em que, finalmente, a ACuCa-SP se formalizou, depois de cinco anos de atuação no movimento pela legalização da maconha no Brasil.

 

 Não há como entender essa entidade importantíssima para o ativismo canábico brasileiro sem conhecer a figura por trás dela. Fernando da Silva é quem dá cara ao movimento, na forma de Profeta Verde. Formado em Direito pela Universidade de São Paulo, é fundador e diretor da ACuCa-SP que, em suas próprias palavras, é “uma associação de pessoas que querem se unir por um interesse comum, que é a legalização, o direito de usar maconha”.

 

O Ganja Talks entrevistou o Profeta Verde e reúne abaixo os principais pontos dessa conversa.  

 

Ganja Talks – De onde vem o Profeta?

 

Profeta Verde - Eu já fumava maconha desde 2005. Em 2009, estava na faculdade e comecei a ver o movimento pela legalização, a entender que a maconha era uma causa justa. Eu já tinha interesse por política e o problema da maconha era onde eu me sentia oprimido e onde poderia operar politicamente com identidade, honestidade, sinceridade. Nessa época, a maconha ainda era muito estigmatizada. A Marcha da Maconha foi proibida em 2008, em 2009, quando eu comecei a entrar, e em 2010, quando participei intensamente. Em 2011, quando nasceu o Profeta, foi proibida de novo. Aí, teve toda uma repressão, e um julgamento do STF decidiu que falar sobre a legalização não é crime de apologia, mas uma liberdade de expressão, um direito de manifestação do pensamento. Em 2011, como estava rolando essa proibição, a gente propôs para as pessoas irem de fantasia. E eu fui com essa roupa, que tinha uma inspiração simbólica de alguns elementos, alguns personagens, e encontrei ali o profeta, que tem essa característica de anunciar o que está para acontecer. Tem um lado espiritual, um lado artístico, mas, especialmente, é uma ferramenta de comunicação para conseguir me proteger na época, não me expor tanto, mas também para tornar o assunto mais lúdico e facilitar a lembrança das pessoas. Tem gente que gosta, tem gente que não gosta, mas foi assim que veio essa história.

 

GT - Você acha que foi mais da necessidade de se esconder ou de se mostrar de uma outra forma?

 

PV - As duas coisas. Tive a necessidade de, no momento, separar um pouco uma expressão pró-legalização das drogas da minha vida pessoal, mas também uma estratégia de expressar melhor e com mais potência essa questão. É um público jovem, uma galera aberta, criativa, que entende as metáforas, entende a brincadeira, entende que tem um cunho performático, artístico. No teatro, aprendi que tem uma vertente que trabalha esse tipo de “work in progress”, que são obras contínuas, então, virou uma intervenção. Hoje, o Profeta é um candidato, é um ser político, é um ativista, é um advogado, sou eu, não sou eu.

 

GT – Quando a ACuCa surgiu?

 

PV - Em 2012, depois de ter participado ativamente da Marcha e de ter criado o Profeta, eu já estava nessas de como organizar o movimento, e concebi a possibilidade de fazer uma associação de usuários. Fui atrás, pesquisei, chamei as pessoas... Mas aí tem que ter estatuto, tem que ter diretor, sede, tem que pagar taxa, contador, e a gente não tinha estrutura física, experimental, nem maturidade para formalizar tudo. De 2012 a 2017, levamos de uma maneira mais informal, mas encarando como uma associação, respeitando o estatuto, fazendo reuniões. Até que sentimos a necessidade de profissionalizar a ACuCa, melhorar os processos, colocar planejamento, fazer a cobrança da anuidade, gerar benefícios para os associados.

 

GT - De onde veio essa necessidade?

 

PV - As pessoas foram ficando mais maduras, mais técnicas. Também foram chegando mais pessoas com níveis de capacidade técnica, com know how e experiência de vida para contribuir para um projeto mais profissional. E essa é nossa caminhada com os associados, de extrair o melhor deles para tornar a nossa luta pela legalização uma coisa bonita, séria, bem organizada, que gira dinheiro, que gera oportunidades, que causa impacto na sociedade.

 

GT - Quem é bem-vindo na ACuCa?

 

PV - Qualquer pessoa que tenha interesse pela cultura canábica, mas especialmente as pessoas que fazem uso e não tem problema nenhum em assumir isso. A diferença das associações para outras iniciativas, como as empresas, é que elas têm que contar com os associados, é uma construção coletiva. Tem uma diretoria que guia, mas o patrimônio não é dessa diretoria, não vai haver lucro. A gente vai pagar funcionários, gerar uma renda, que é importante, mas você sabe que está investindo em uma coisa que é coletiva.

 

 

 

GT - Qual o viés da ACuCa?

 

PV - Nosso viés é cultural. Então, tudo que aborda maconha, a princípio, pode nos interessar. Pode ser pelo viés medicinal, religioso, recreativo. Pode ser pelo viés de redução de danos, de empreendedorismo, economia, arte, música, livros. Só que a gente é o que os associados são. Então, tem o lado jurídico, porque sou advogado, tem o lado de administração e empreendedorismo, porque tem umas pessoas que são donos de head shops, tem o lado medicinal, porque há pacientes. Tem alguns lados, não todos. Mas, quanto mais associados entrarem, mais amplamente a gente consegue abordar essa cultura canábica, que é tudo. É cultura no sentido de tudo que o ser humano produz de conhecimento. É pretensioso? É, mas é isso.

 

GT – Por que alguém que cultiva ou consome deveria se associar?

 

PV – Por essa oportunidade de encontrar outras pessoas que estão fazendo a mesma coisa que você, um ato revolucionário, de enfrentar a lei e se arriscar, cultivar maconha, mostrar ao mundo que isso é uma coisa normal e se proteger. E, porque a gente se conhece, se acontece algo com um associado, a gente se ajuda. Temos associados com conhecimento especializado na questão jurídica, mas também em cultivo, extração, utilização, redução de danos, condução como uso terapêutico. Então, cada associado está em contato com tudo isso.

 

GT - Como fazer para se associar à ACuCa?

 

PV - No site, a pessoa faz um cadastro, com perguntas de cunho mais subjetivo, para a gente entender um pouco seus interesses, sua origem. Quando ela paga anuidade e a diretoria aprova o cadastro, atribuímos a ela um número de registro, fazemos a carteirinha, explicamos sobre os benefícios, os descontos em lojas e os encontros especiais para os associados. Na ACuCa, há muitos brainstorms de ideias para atuar coletivamente em algumas coisas que temos como estratégia, como a Marcha da Maconha, o Advocacy, em que ajudamos os candidatos da Bancada da Maconha, e os associados têm toda liberdade para atuar nessas e em outras iniciativas.

 

 

GT - O que é a maconha para você?

 

PV - Uma planta medicinal, que a gente usa como remédio, como distração, prazer. A maconha é uma planta muito diversa. No âmbito mais pessoal, ela foi fundamental para me libertar de algumas coisas, algumas amarras, mudar alguns parâmetros que vinham arraigados, de família, de tradição, de um núcleo que eu habitava. Hoje eu falo de maconha abertamente. Troquei a maioria das drogas que a gente poderia usar, como o álcool, cocaína, café, cerveja, vinho, Rivotril, aspirina, troquei tudo pela maconha. Fumo maconha todo dia, sei que é uma relação ambígua, mas é a minha medicina, uma planta guia para mim. E eu sinto que, metaforicamente, ela é importante para a Humanidade também.

 

 

Fotos: Thaís Ritli + http://profeciaverde.wixsite.com/profeta

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